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NÃO HÁ SILÊNCIO

CURADORIA BÓLIDE1050


 

O silêncio não fala: ele significa. O silêncio não é o não-dito, não está em um lugar de negação, de ausência. O silêncio constitui a consistência do dito, ele tem significância própria. Marca as pausas pro outro, para a escuta do outro. É fundador do movimento de sentidos. Não é independente, auto-suficiente, preexistente. Sempre dizemos a partir do silêncio! No entanto, o silêncio não tem gramática nem sintaxe. Para Orlandi (2007) existe uma “política do silêncio”. “A política do silêncio se define pelo fato de que ao dizer algo apagamos necessariamente outros sentidos possíveis, mas indesejáveis, em uma situação discursiva dada” (ORLANDI, 2007, p. 73). Assim os sujeitos lidam com a escolha de significados autorizados e não autorizados. 

A exposição Não há silêncio fala de uma resistência poética em relação aos poderes autoritários que, mais do que nunca, tentam nos calar. Na contemporaneidade vemos essa relação entre imagem/palavra/narrativa aplicado de diferentes maneiras, com diferentes intencionalidade. Ann Hamilton lançou a pergunta: podem as palavras serem atos de criação? Os artistas Max Pereira, Jean Sartief, Sofia Bauchwitz e Aldenor Prateiro ensaiam formas de contar um ruído constante, mesmo que no âmbito da palavra, da semiótica, da poesia do ínfimo e do inútil.

Max Pereira apresenta a série que dá título à exposição: "Não há silêncio”. São  textos associados a fotografias em branco e preto que tensionam a função da palavra como definição ou legenda para a imagem que se vê. Aparentemente desconectadas, na verdade os relatos apresentados por Max apontam para um discurso romântico contemporâneo que dialoga estreitamente com imagens silenciosas de árvores, plantas, objetos abandonados, que tocam um ponto sublime que é muito próprio dos desejos amorosos e as dores associadas ao romântico em uma época marcada pela velocidade e liquidez. As imagens surgem às cegas, literalmente, feitas em um escuro total que ilustraria muito bem, seguindo o imaginário coletivo, um ainda possível silêncio. Desses dos terrenos baldios, das casas do interior à luz da lamparina. No entanto, ao serem reveladas e tratadas, as imagens mostram o que se escondia por trás da aparente solitude. 

Jean Sartief apresenta três objetos cerâmicos que se assemelham a um coração. O coração aparece não só como órgão humano, mas metaforicamente envolto em inúmeras simbologias populares que se vêm deslocadas ou tensionadas de acordo com cada um dos suportes escolhidos. A obra Espelho Meu é uma referência direta às fábulas dos irmãos Grimm quando referem-se à vaidade; Navio Naufragado é também o título de uma poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen ao qual o artista se inspirou para esta obra. A obra Coração de Francesca, refere-se ao primeiro diálogo entre Dante e Francesca que contém todo o sofrimento dela na relação amorosa com seu amante e ao fato de ter sido assassinada pelo marido.

Esses simbolismos todos de um amor místico e inalcançável, produzidos por Jean Sartief,  dialogam com os trabalhos de  Sofia Bauchwitz, que apresenta uma amostra fotográfica e um texto de sua pesquisa em torno ao inefável e ao que não se mostra por completo, aquilo que, para a artista, permanece sempre em silêncio. O texto faz parte de uma série de livros inventados. O texto escolhido para a mostra conta, a modo literário, o achado de uma carcaça de baleia na praia. Tomando para si metáforas aquáticas e como principal personagem a baleia cachalote, que mora nos abismos oceânicos, a artista fala do amor, das marcas que temos para interpretar o que não podemos ver ou justificar com a ciência, e também da arte como criadora de um pensamento aberto às incertezas.

Aldenor Prateiro apresenta objetos de latão e prata. Há um caracol, ao que parece, que brilha pequeno como uma jóia. A aparente contradição nos remete de imediato à poesia de Manoel de Barros e seu elogio ao rasteiro, ínfimo e banal. Com títulos tão poéticos como Esplendor de Lesma, Pulo do Chão e Glorioso Amanhecer, Aldenor tem uma obra minimalista, que evoca formas orgânicas, minerais, com um ar envelhecido pelo tempo. Singelas, essas formas diminutas ocupam um espaço minúsculo de forma incrivelmente potente, quase como haikus.

Na política do silêncio, certos sentidos não podem circular em determinados espaços. Os artistas na exposição Não há silêncio ativam sentidos e espaços onde não se chega com a ruidosa linguagem. Max Pereira fotografando a escuridão, Aldenor Prateiro produz objetos a partir do poeta Manoel de Barros, que disse ter fotografado o silêncio pela rua carregando um bêbado. Jean Sartief cria imagens para os diferentes ritmos\afetos do coração e Sofia Bauchwitz nos leva ao encontro da baleia cachalote em oceanos abissais. O conjunto dos trabalhos exibidos afirmam os diferentes sentidos do silêncio, sua inexistência como ausência de som e ruído. Ao mesmo tempo, em que afirmam sua potência de grito ensurdecedor.

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